São João no Porto


QUADRAS DE S. JOÃO


O Jornal de Notícias vem patrocinando há mais de 80 anos, ininterruptos, um Concurso de Quadras cujo interesse e popularidade não conhecem esmorecimentos.
No livro São João do Porto há um suplemento compilado por GERMANO SILVA com uma apreciável quantidade de QUADRAS NA TRADIÇÃO SANJOANEIRA DO PORTO, as melhores de cada concurso até 2005, que se transcrevem. As mais recentes foram sendo acrescentadas por mim.

 

   
             
2017
(89º)
  Nesta noite tão tripeira,
Um mistério aconteceu:
Tu, pulavas a fogueira,
Quem se queimava, era eu...
  Cascatas, pequeno mundo,
São encanto com destino
São um sonho vagabundo
A embalar velho e menino.
  Não desprezes quem, na vida,
Tombou, de passo mal dado,
Até o balão, pra subida,
Gosta de ser amparado!....
   

Dorido

 

Dipe

 

S.O.S

    O peito é um balão a arder
Olhos, fogueira a brilhar
E a noite é água a correr
Em que eu me vou baptizar
  Desfrute sempre o presente.
S. João, repare bem:
O passado é rusga ausente.
Futuro... é rusga que vem!
  O S. João esmerou-se;
Pôs o cordeiro a pastar,
Pôs um cravo, aperaltou-se,
Foi p'ra ribeira brincar....
   

Água

 

Presente Envenenado

 

Ribeirinha

    Carregam sonhos do povo.
Os balões que ardem no ar
Pondo no céu lume novo
Que brilha no nosso olhar.
  Ponho os olhos na cascata
Ponho os sonhos num balão
E a saudade que me mata
Eu ta dou, meu São João!
  Não desesperes na vida
Por te morrer a fogueira;
Com carinho remexida,
Muita cinza dá braseira!...
   

Lume Novo

 

Saudade

 

João Pedro

    Brilhaste alegre, gaiteira,
Com teus braços nus, morenos,
E até a própria fogueira
Com ciúmes, brilhou menos...
  Não me importo que me deixes
Sozinha, amor, na noitada;
Só que depois não te queixes,
Se me perder na orvalhada!...
  Não te chegues à fogueira
Se estiver muito atiçada,
Pois não consegues maneira
De sair sem ser queimada.
   

Embeiçada

 

Maria

 

Raliv

             
2016
  Parece que o tempo voa;
Balões, o baile, a folia;
A fogueira ainda está boa:
Mais um pulo e já é dia.
  Que lindo é ver, S. João,
Em teu louvor na noitada,
Um povo à míngua de pão
A brincar sob a orvalhada!
  Uma cascata é, no fundo,
Algo estranho e singular;
O oleiro imita o mundo,
Mas não o pode mudar...
   

Keda

 

Júlio Alberto

 

Perplexo

    No baile de São João
Eu quis tornar-te poema;
Quis ler-te p'la minha mão
Sem perder de vista o tema!
  Fiz fogueira, vem saltar
Alegre, de saia ao vento
Vem obrigar-me a pecar,
Ao menos, em pensamento.
  Minha vida é o fim da festa
Benzida p'las orvalhadas;
Lembra a cinza que inda resta
Nas fogueiras apagadas.
   

Zé Dançarino

 

Zé Pescador

 

Benção

             
2015
  Se o povo não se precata,
Nem São João vai ficar,
Que os santinhos da cascata
'Stão todos a emigrar.
  Na rusga de cravo ao peito
Avô e neto a brincar.
São dois balões a preceito:
Um subindo, outro a baixar!
  Quando saltas a fogueira
E mostras o manjerico,
De nada vale a cidreira
Tal é o estado em que fico!
   

Poeta de Veludo

 

Diogo Neto

 

Nandox

             
2014   Do barro fomos tirados,
E somos, desde essa data,
bonecos articulados
em monumental cascata...
  A saudade é o que resta
de uma fogueira apagada,
é como vir de uma festa
trazendo o cheiro e mais nada.
  S. João já foi a votos
e ganhou com maioria
o lema dos seus devotos
é reinar até ser dia.
             
2013
  Vês este cravo encarnado?
Quanto é feliz meu amor:
Tantas vezes foi calcado
E nunca mudou de cor!...
  Não fui de bilha vazia
Dentro dela levei mágoa,
Da fonte trouxe alegria
Troquei a mágoa por água.
  Esta vida é uma cascata
Que fica por construir
Por ela a gente se "mata"
Para morrer a seguir.
   

Poetinha

 

Amor-e-Vida

 

Said

             
2012   As orvalhadas na rua
S. João sobre a cascata,
Lembram rendinhas que a Lua
Urdiu com flores de prata!
  Mais que santo da Igreja
É do Porto o S. João,
Cá todo o povo o festeja
Mouro, judeu ou cristão.
  Trevos de sorte não colhas
Na noite de S. João;
A sorte que vês nas folhas,
Pode bem ser ilusão!...
   

Sílvia

 

Maguiar

 

Fátima

             
2011
  Meu S. João, não me caso.
Sou solteiro e estou contente...
É na mudança de vaso
Que o manjerico mais sente!...
  Sais de mansinho e eu fico
A pensar se, por acaso,
Teu viçoso manjerico
Não tem rega noutro vaso!
  Cá no bairro há uma data
De gente em desassossego.
Não há santos na cascata,
Estão todos no desemprego.
   

Passarada

 

João André

 

             
2010   Não me estreites de maneira
Que me impeça respirar.
Lembra-te, amor, que a fogueira
Só arde se tiver ar!...
  Num manjerico com arte
Toda uma vida se entende,
Com ele, a vida se parte,
Se dá, se compra e se vende...
  S. João, a festa é tua,
Não queiras fazê-la a sós.
Junta-te aos santos da rua...
Que não dão ponto sem nós.
   

Rosarinho

 

Videirão

 

Damas

             
2009   Dancei com tão pouca arte
Que até o cravo ao meu peito,
Com o teu, num baile à parte,
Mostrou que tinha mais jeito!...
  Solteira, não sei se fico,
mas por casar-me não corro:
Não vou dar um manjerico
em troca de um alho porro.
  Ver os balões na subida
Mostrando ao mundo a fachada,
Faz lembrar os que na vida
Sobem cheiinhos de nada!...
   

Agostinho

 

Becas

 

Neca

             
2008   Quando a Maria bailar
Com a saia de balão,
Até as nuvens do ar
Querem ser pedras do chão.
  Ir numa rusga qualquer
É dança em que não me dou;
Se eu fosse como alguém quer
Nunca mais era quem sou!...
  Cuidado com esse jogo
De brincar junto à fogueira:
Pode o santo pôr-nos fogo
E sai cara a brincadeira.
   

Peixoné

 

Fogueira Nova

 

Lana Caprina

             
2007   O pobre que faz, cantando,
Do lar, cascata modesta,
Vê nos seus filhos brincando
Os balõezinhos da festa!
  Um miudo vagabundo,
Quando lhe dei o balão,
Pensava levar o mundo
Preso no fio da mão.
  No dança trocaste o passo,
Troquei o meu, em seguida...
E acertámos o compasso
Prá dança da vida!
   

Justino

 

Fidalgo

 

Tic Tac

             
2006   Eu sou a fonte vadia
Dum S. João vagabundo
Que mata a sede à folia
Da maior noite do mundo.
  Meu balão não é d'espanto!
Não tem vinda, só tem ida,
Leva risos, leva pranto...
Tudo faz parte da vida.
  Com tua mão presa à minha
Fui à fonte e não bebi.
A estranha sede que tinha
Era só sede de ti!
   

Resende

 

Nana

 

Fingidor

             
2005   Fogueiras de amor, já fiz,
Mas ocultei-lhes a chama.
A alma ama e não diz,
A boca diz mas não ama.
  Pelo Santo António vi-te,
P'lo S. João fui falar-te;
No S. Pedro convenci-te,
Falta um santo p'ra deixar-te.
  Não me peças que te conte
Onde é que tenho bailado;
Fogueira que arde no monte,
Tem presente e não passado...
   

Amante sincero

 

Teimoso

 

Tucha

             
2004   Sou ateu, mas faço santos,
Cascatas, figuração;
Faço risos, faço prantos;
Faço a vida ó São João!
  Uma oculta semelhança
No baile vi traduzida:
São vida os passos de dança,
São dança os passos da vida.
  Sem ter dons de pensamento,
Sem ser santo ou vagabundo;
nunca tive acolhimento
nas cascatas deste mundo...
   

Artesão

 

Poeta bailarino

 

Pau Santo

             
2003   O ferrenho "Zé tripeiro"
Passou a noite de vela;
Com S. João num craveiro
E o Porto na lapela...
  Já nem tu mesmo adivinhas,
Ó meu rico S. João,
Quanto custam três sardinhas,
Um copo, um naco de pão...
  Manjerico preso ao vaso
É mulher de corpo inteiro:
Se não lhe toco... não caso.
Se lhe toco... perde o cheiro...
   

Goldes

 

Velho Saudoso

 

Hesitante

             
2002   Menina, tome cuidado
Nesse seu passo de dança...
Nem sempre um passo mal dado
Acaba numa aliança.
  Menina que à redea solta
Mostra na dança os encantos,
Cautela que à tua volta
Há joões que não são santos...
  Com mais olhos que barriga
Tiraste a saia de folhos;
Agora vês, rapariga,
Tens mais barriga que olhos...
   

Olho Vivo

 

Pensador

 

Malandreco

             
2001   Os olhos duma criança
São de luz, lá bem no fundo.
Dois balõezinhos de esperança
No céu cinzento do mundo.
  Na rusga fui azougada,
No baile fiz o que pude.
Quem quer gozar a noitada
Não faz favores à virtude.
  Tem fé na vida, tem calma,
Tenta a sorte, que ele existe;
procura a sorte na alma
de um trevo que nunca viste...
   

Doravante

 

Graça Menina

 

Ex corde

             
2000   Nesta vida, S. João,
Nada se pode agarrar.
P'ra ver subir o balão
Nós o temos que largar...
  Chinelinha de tacão,
São João, entrei na valsa.
Foi tão grande o trambolhão,
Dei por mim, estava descalça...
  Eu sou fogueira cansada,
Mesmo assim quero ir à festa.
São João, vou p'rà noitada
Queimar a lenha que resta...
   

Madalena

 

Maria descalça

 

D. Beija

             
1999   Nenhum santo é menos santo
Por estar numa cascata
Que um pobre ergueu, com encanto,
Num simples bairro de lata...
  O casebre era a cascata,
E o velho, sentado ao fundo,
Era um S. João, sem data,
Com todo o sonho do mundo!
  Meu amor, teu alho-porro
Namora o meu manjerico...
Quando se beijam, sem gorro,
Que sobressaltada eu fico!
   

Roque Santeiro

 

Presepe Vivo

 

Atos

             
1998   Tanto bateu a chinela
Ao bailar com o seu Zé;
Tomou-lhe o gosto, hoje é ela
Em casa, a bater-lhe o pé.
  A fonte é como a mulher
Que ama sem ser amada;
Não bebe e dá de beber,
Só beija quando é beijada.
  De saias curtas, travadas,
Rainhas da solidão;
Sois ervas-santas pisadas
Que ninguém ergue do chão...
   

Bailinho

 

Ex.corde

 

Nora Guey

             
1997   Meu amor foi um balão
Que depressa se perdeu.
Bastou-me soltar-lhe a mão
E foi um ar que lhe deu!
  Nos bailes de S. João
Troquei penas por compassos.
Por isso cumpro prisão
Na cadeia dos teus braços.
  Com ares de balão enchendo
Cuidando não mais cair,
Há os que sobem descendo,
Porque descem para subir.
   

Clone

 

Preso incorrigível

 

Primo

             
1996   Minha mulher, meu enlevo,
Balão, manjerico e brasa...
- Por que hei-de ir atrás do trevo
Se já tenho a sorte em casa?
  Liberta o meu coração,
É balão que quer partir...
Nunca prendas o balão,
Que o rumo dele é subir!
  Não ouças, não digas nada,
Deixa lá falar quem fala;
Pois o melhor da noitada
É aquilo que se cala...
   

Homem Feliz

 

Nova era

 

Kalado

             
1995   Fogueira à porta de casa
Isso era antigamente...
Hoje onde quer se faz brasa
Aos olhos de toda a gente.
  Acabada a reinação,
Vim da festa acompanhado.
Quis passar por gavião,
Acabei pombo anilhado.
  No S. João tu não andes
À noite nas Fontainhas;
Deixa essas festas grandes
Que eu faço-te umas festinhas...
   

Olho à Espreita

 

Vaga-lume

 

Rateira

             
1994   Se não me queres, só me resta
Vir da festa antes do fim.
Não me interessa estar na festa
Sem a festa estar em mim!
  Ah poeta! Tu desfolhas
Tua sorte em tons diversos:
No trevo de quatro folhas,
Na trova de quatro versos...
  Achas bem que cheire a rico
O vaso que te contém;
Mas teres outro manjerico,
A mim, não me cheira bem...
   

Bê-Gê-Vê

 

Pó-e-tá

 

Maneiras de ver

             
1993   Com três folhinhas somente
Fez Deus o trevo perfeito:
- que triste a sorte da gente
Se a sorte está num defeito!
  Não me canses a bailar,
Meu amor, nesta noitada,
Porque 'inda quero rodar
Nos braços da madrugade...
  Quando surges, debruçada
No peitoril da janela,
Diz toda a gente espantada:
- Não há cascata mais bela!
   

Raio-X

 

Ex corde

 

Flor da noite

             
1992   Meu balão, não vás pedir
A ajuda do vento forte:
Na vida, para subir,
Basta um arzinho de sorte...
  Ontem, lenha cobiçada.
Hoje, fogueira acendida.
Amanhã, chama apagada.
E depois... cinza esquecida...
  A tua saia em balão
Quando danças, sobe tanto,
Que quem vem ao S. João
Já nem quer saber do santo...
   

Té-Té

 

Cinza Esquecida

 

Marocas

             
1991   Despe esse teu preconceito.
Se fores bailar, tira o xaile.
Porque o par que tens no peito
É o melhor que está no baile!
  Meu amor! Não vás pasmar
Se um dia voltar p'ra ti:
- eu quero ressuscitar
Na fogueira onde morri!
  Na rusga deste-me a volta
Depois das voltas que demos...
E eu que era barco à solta
Hoje sou barco com remos.
   

Minzo

 

Rio douro

 

Nita

             
1990   Se alguma coisa te devo,
Não fales... tudo passou;
Pois eu nunca ouvi o trevo
Falar de quem o cortou!
  Se dançamos, sou fogueira;
Se me abraças, fogo preso,
Por te amar, queira ou não queira,
Trago sempre o lume aceso!
  Um beijo que foi fogueira
Nunca na vida se esquece,
Pois queimou de tal maneira
Que nem em cinza arrefece.
   

Lula

 

Rosa Agreste

 

Almacave

             
1989   S. João: bailo contente
Na rusga que hoje renasce;
O pobre também é gente
Nem que dos sonhos não passe!
  Mesmo velhos, companheira,
Também nós vamos à festa;
Acender uma fogueira
Com a lenha que nos resta!
  A nossa rusga é modesta
Mas lá vai toda contente,
Mostrando dentro da festa
Que a festa é dentro da gente!
   

Orion

 

Kuricas

 

Benamor

             
1988   É noite de S. João!
- E em cada rua modesta
Cada pedaço de chão
É um pedaço de festa!
  Teu seio, a medo, tocado,
Na noite de S. João,
Ficou-me sempre moldado,
Na concha da minha mão!
  Em namoro ia atrás dela,
A rusga de amor é assim.
Casámos, agora é ela
Sempre em rusga atrás de mim.
   

João Humilde

 

Manuel Corgo

 

Flor da Giesta

             
1987   Meu coração se arrepia,
S. João, pois vem-me à ideia
Que há muita vida vazia
Mesmo nesta noite cheia!
  Seja qual for teu critério,
Tens, enfim, de concordar
Que um S. João mesmo a sério
Terá de ser a brincar.
  Na festa, a rida que eu faço
É bem pequena e singela:
- Meu braço com o teu braço
E nós os dois dentro dela.
   

Realista

 

Calíope

 

Esculápia

             
1986   Quando na rusga bailei,
Triste sina me marcou.
Se soubesse o que hoje sei,
Não seria o que hoje sou...
  Tu cantas! - e eu sinto mágoa
Do rosmaninho do monte
Que morre com sede de água
Ouvindo cantar a fonte...
  Chamas-me velha gaiteira
Por ir na rusga em alarde:
- lenha lançada à fogueira,
Quanto mais velha mais arde.
   

Solrac

 

Aganipe

 

Papau

             
1985   Afina-me essa guitarra,
Para eu deitar cantiga.
Esta noite sou cigarra:
Já basta de ser formiga!
  Dei-te um pé de manjerico,
Custou-me um dia sem pão...
- tripeiro que não é rico
Faz das tripas coração!...
  Para não ter de aturar
Chatices que a gente tem,
S. João não quis casar
E fez ele muito bem.
   

Al Minhas

 

Pé-descalço

 

Computador

             
1984   Na noite de S. João,
Vagabundos, que excelência!
Ricos dormindo no chão
A fazer-vos concorrência...
  Teu cravo de estimação
Tão atrevido que ele é!...
- Onde ninguém põe a mão,
Foi ele meter o pé...
  Meninos dos bairros pobres,
Pobres bonecos de louça
Que andais a pedir uns cobres:
São Joãozinho vos ouça!
   

Cravo Rajado

 

Olho Vivo

 

Anémona

             
1983   Na rusga vão, lado a lado,
Neto verde e avô maduro;
- que lindo é ver o passado
Encorajando o futuro!
  Se procuras ser feliz,
Não olhes para o balão:
O trevo tem a raiz
Bem enterrada no chão!
  Se a banda do meu lugar
Não mudar já de repente,
Acabamos por dançar
À moda de antigamente.
   

Ruas

 

Psicadélico

 

Quim Anjos

             
1982   Na noite de S. João,
As juras de amor fiel,
São bolinhas de sabão
E barquinhos de papel!
  Eu sou como o tojo bravo,
Que a própria sede enrijece!
Vive de mimos o cravo
Que à falta deles fenece!
  Ao ver-te pobre e com luxo,
Não sei bem o que pareces:
Como a água do repuxo,
Tanto sobes como desces.
   

Comicala

 

Leonardo

 

Pensador

             
1981   Não há fogueira sem lume,
Profecias sem profetas,
Não há amor sem ciúme
Nem S. João sem poetas.
  Na roda te andei buscando
Por te encontrar me perdi.
- Agora, perdida ando
Se vou na roda sem ti.
  O eco duma cantiga,
Na noite de S. João,
Pode ser aquela espiga
Que dá flor, farinha e pão.
   

Marujo

 

Alça-Xofra

 

Notívago

             
1980   Fonte velhinha, não cantes
A convidar-me à noitinha:
Nem tu tens a água dantes
Nem eu a sede que tinha.
  Com certas moças não brinco
Em noite de S. João.
São como porta sem trinco
Que faz um homem ladrão.
  Pus o cravo na lapela
Esta noite, meu Santinho.
E dubruçado à janela
Fiz da saudade o caminho!...
   

Zefir

 

Viajor

 

Luar de Janeiro

             
1979   Manjericos - mar florido
Sobre as pedras do passeio.
O menino adormecido
É S. João lá no meio!...
  Nesta noite, de alma em brasa,
Cada um tem casa sua...
Cabemos todos em casa
Porque moramos na rua.
  Não chora a fonte a pedrada
Que a sua face maltrata,
Que o luar da madrugada
Vem pôr-lhe pensos de prata.
   

Maria Berta Barros

 

Manuel Azevedo Mendes

 

Maria Amélia Rodrigues Novais

             
1978   Cá vou na rusga contente,
Porque esta noite a cidade,
Mais do que um rio de gente,
É um mar de humanidade.
  Descalços são pombas brancas
Teus pés bailando no asfalto...
- foi ao descer das tamancas
Que tu voaste mais alto!
  Querida: a nossa ternura
Não se alterou, na verdade!
- Quando a fonte é de água pura
A sede não tem idade!...
   

M. dos Prazeres de A. Lourenço

 

António Júlio da Piedade Ferreira

 

Manuel Ferreira de Lima

             
1977   Na noite dos manjericos
Vão no balão mais uns cobres.
Brincamos vida de ricos,
Vivemos vida de pobres.
  Os juros que tu me deves
Do amor que te dedico,
Podes pagá-los em leves
Prestações de manjericos!
  Eu tenho mais liberdade
Que o balão no firmamento.
Eu ando à minha vontade
E não ao sabor do vento...
   

Zé do Norte

 

Arraial

 

Fogo-fátuo

             
1976   Menina, tenha cuidado,
Não caia, siga com jeito...
- Cravo que seja calcado
Ninguém o quer a seu peito...
  Tanto sonhei vê-los grandes
Aos cravos meus - meus meninos,
E agora que eles cresceram
Quisera-os bem pequeninos.
  S. João! Comparo o Povo
De cravo ao peito a cantar,
À força do vinho novo
Quando ferve no lagar!
   

Marcus

 

Pato Bravo

 

La Violetera

             
1975   Ó S. João, quem me dera
Ter o que não mais voltou!
Ser a figueira que eu era
E não a cinza que sou!
  Se a mensagem duma trova
Vai inspirar quem a escuta,
S. João, isso é uma prova
Que a cantar também se luta!
  Melhor rusga não consigo
Levar-te, meu S. João...
- Quinze filhos vão comigo
E ainda vou de balão!...
   

Ave Alegre

 

Gui

 

Tinita

             
1974   Povo! Na tua fé louca,
Cantavas p'ra não chorar!...
- Hoje, sem cravos na boca,
Choras de poder cantar.
  Cravo rubro era sinal
De liberdade - dizias.
Que maneira original
Com que afinal me prendias!...
  Raro apareces e eu fico
Mais sedento cada vez;
Ninguém vinga um manjerico
Regado de mês a mês.
   

Topázio

 

Fogo Preso

 

Ticotico

             
1973   A roda do nosso abraço
Tem um sentido profundo:
Quanto mais se aperta o laço
Tanto mais se alarga o mundo!
  Não temo que alguém me aponte
Os beijos que dou por bem!
- É humana toda a fonte
Que não nega água a ninguém!
  A razão não se procura
Na noite de S. João.
- Nesta noite de loucura
Ter loucura é ter razão...
   

Garnizé

     

Sempre

             
1972   Tem um céu bem estreitinho
Meu olhar-balão feliz:
Vai das pedras do caminho
À janela onde sorris.
  Agora deito balões;
Criança, deitava estrelas.
- Sempre atrás das ilusões
E sempre, sempre a perdê-las!
  Com dois filhos no regaço,
Outros dois presos à saia,
Que feliz trevo eu abraço
Com medo que a sorte caia!
   

Luar de Cristal

 

Fu Li On

 

Tinita

             
1971   Nós em casa somos oito,
Num rancho bem alinhado!
- Se o trevo de quatro é sorte,
Já levo a sorte em dobrado!
  Deixa falar quem desdenha
Da fogueira que acendemos.
Tu deste o lume, eu a lenha
Ao mundo nada devemos!...
  Foi em rusgas como estas
Que me perdi por alguém;
Hoje a saudade faz festas
A quem mais festas não tem.
   

Tio Quim

 

Musa Triste

 

Violabis

             
1970   Sou velhinho, S. João,
Mas não nego que me afoite
A ir de ramo e balão
Nos braços da tua noite!
  Mau S. João, bem podias
Dar-me brasas que já tive,
Porque a roda dos meus dias
É só de cinzas que vive!
  Poeta, que tens maneira
De rir do mundo à vontade:
Faz do sonho uma fogueira,
E queima nela a saudade!
   

Miragaia

 

Cinzento

 

Alegrete

             
1969   Sempre que bailo contigo,
Sinto a alma em dois pedaços:
- Em penitência a teus pés
Em pecado nos teus braços!
  Arde ao sol, à chuva, ao vento!
Amor - fogueira sagrada!
Não importa o sofrimento,
O que importa é ser amada!...
  Como a fonte ressequida
Que a todos deu a beber,
Também dei tanto na vida
Que me esqueci de beber.
   

Popica

 

Margarida Dalva

 

Sombra

             
1968   Fontes há muitas, mas, vede
Que toda a gente é perdida,
Se a vida de quem tem sede
Não tiver sede de vida.
  Trevos da sorte não colhas
Se o teu destino é mais forte:
- Só terás em quatro folhas
Sonho, amor, saudade e morte!
  Parte a noite em quente alarde
E a saudade vem rendê-la;
Porque não parte a saudade
Ficando a noite em vez dela?
   

Rosa Desfolhada

 

Crisálida

 

Cinza Morta

             
1967   Quando a saudade é presença
Dum beijo que nos queimou,
Muito se engana quem pensa
Que a fogueira se apagou...
  Na graça do teu bailar
Fiquei preso de tal jeito
Que por sorte, ou por azar,
Te trago a bailar no peito!
  Menina, se vais à fonte,
Não vás sozinha, cuidado!
Não queiras que o mundo conte
Os passos que não tens dado...
   

Sayonara

 

Zé do Porto

 

Zezinho

             
1966   S. João, vê como é triste
Depois da lenha queimada,
Sentir que a vida 'inda existe
E ser fogueira apagada!...
  Temos do trevo da sorte
Duas folhas: nós os dois!
O resto não nos importa...
As outras virão depois.
  Trevo da sorte comprado
É sorte que não se tem...
Se a sorte fosse ao mercado
Já não a tinha ninguém...
   

Indino

 

Riomar

 

Caelo

             
1965   Todos temos nesta vida
O nosso trevo da sorte.
Colhem-no uns ao nascer,
Outros na hora da morte.
  Se a saudade fosse pão
Igual ao que a gente come,
Na noite de S. João
Ninguém morria de fome.
  Foge à fogueira, Maria,
Se não o tempo, verás,
Transforma a tua alegria
Em rapariga ou rapaz...
   

Bernardino Pedro

 

Saudosista

 

Fernando Liszt

             
1964   Ao pé do trevo colhido
Temos outro por colher:
É um, o tempo vivido,
Outro o que está por viver.
  Deste-me um trevo de pano,
Guardei-o no coração:
Vale mais ter um engano
Que perder uma ilusão.
  Eu sou a fogueira morta,
Triste fogueira da rua...
Quis findar à tua porta
A lenha que já foi tua!...
   

Toninho

 

Vento Sul

 

Flor Bela

             
1963   Deste-me um beijo, Manel,
Na noite de S. João.
Deus queira que tanto mel
Não traga nenhum ferrão.
  Eu perdi-me na fogueira
E fui fogueira perdida...
Depois chorei e fui fonte
Fui fonte porque dei vida!
  Para bailar, meu amor,
Não me estreites desse jeito,
Pois posso ficar da cor
Do trevo que tens ao peito!...
   

Lena

 

Araducta

 

Voz do Oiro

             
1962   Na noite de S. João
Fui contigo, enlouquecida!
Na fogueira dos teus braços,
Abri os braços à vida!...
  A mágoa que anda escondida
Nas trovas que andam no ar,
Se pudesse ser medida,
Dava a medida do mar!
  Passei pela tua porta
E, na cinza que restava,
Senti que a fogueira morta
Nunca mais ressuscitava!
   

Rosa Sem Cravo

 

Tio Arruda

 

Musa de Junho

             
1961   Seja longa ou seja breve,
Toda a cantiga quebranta:
- A pedra fica mais leve
Quando o pedreiro lhe canta.
  Seja a fonte alegre ou triste,
Quando canta, a sua voz
Tem qualquer coisa que existe
No peito de todos nós!
  Se às quatro folhas do trevo
Pedes a sorte, vê bem
Que esta carta que te escrevo
Tem quatro folhas também.
   

Vitta

 

Radamento

 

Julmar

             
1960   S. João... cravos aos molhos,
Manjericos pela rua...
E no sonho dos teus olhos
Balões grandes como a lua!...
  Agora que tu és minha,
Ó fonte que me encantava,
Quisera a sede que tinha
Quando, em vão, te procurava.
  Teus olhos lembram, meu bem,
As noites de S. João...
- Há fogueiras, quando vêm
- Orvalhadas, quando vão...
   

Mira

 

Alfazema

 

John

             
1959   O que é triste é ser mulher!
Se não reparai e vede:
- Nasce uma fonte onde quer,
Onde quer se mata a sede.
  Quem é triste que se afoite
E deixe a mágoa esquecida,
Que esta noite não é noite
De deitar contas à vida!
  Siga o vira! Eu cá desdenho
De vós todos que virais!...
- Quem tem um par como eu tenho
Já não pensa em virar mais!
   

Sayonara

 

Rapioqueiro

 

Mandonel

             
1958   Coração sem ter ciúme
Nunca pode ser meu par:
Fogueira com pouco lume
Não me convida a saltar!...
  S. João, não é pecado
Roubar um beijo ao meu bem.
Deus perdoa o pão roubado
Que mata a fome de alguém!
  Esses teus brincos compridos,
Logo que a dança começa,
São dois pardais atrevidos
A comer frutas à pressa.
   

Musa Triste

 

Zé do Porto

 

Marli

             
1957   Quando os teus pés leveirinhos
Saltam nas pedras da rua,
Fazem lembrar dois pombinhos
Bailando à volta da lua.
  Sedentas da tua boca,
Rezam as fontes, baixinho,
Para que Deus te dê sede
E as ponha no teu caminho...
  Em noite de S. João
É que tu mostras quem és:
Sais a bater o tacão,
Entras em bicos de pés...
   

Santelmo

 

D. Fuas Roupinho

 

São - Joaneiro

             
1956   Ias na rusga sozinha,
Fiz de conta que não vi,
Mas a alegria que eu tinha
Foi na rusga atrás de ti!
  Três folhas! Ninguém se importe
Se o trevo tem menos uma...
Mais vale ter pouca sorte
Que não ter sorte nenhuma!
  Dizes que ficas doente
Quando me beijas; pois bem:
- Beber água da nascente
Nunca fez mal a ninguém.
   

Arievilo

 

Bandarra

 

Azul Celeste

             
1955   São João! Não é loucura
Por amor ser-se perdida.
Pois se a alma fica pura
Nada se perde na vida.
  Bruxedo? Não penses nisso,
Nem queimes ervas aos molhos:
Onde há no mundo feitiço
Que te não arda nos olhos?...
  Ai! Tempo das minhas tranças
- Tempo do vira na eira!
Foram-se tranças e danças...
Estou sem eira nem beira!
   

Giesta

 

Sempre Noivo

 

Maria Só

             
1954   De saudades ficou cheia
A terra que tu pisaste:
Do teu pezinho sem meia,
Da forma como bailaste.
  Não ando às tuas esmolas!
Vou bem à festa sem ti...
- Já mandei pôr meias-solas
Nas chinelas que rompi...
  Quis ser lume de fogueira,
P'ra queimar o meu ciúme;
E passei a vida inteira
A deitar água no lume.
   

Manuel Tripeiro

 

Anitrebla

 

Ida Lina

             
1953   Não me peças que te conte
A causa da minha mágoa.
Quem passa bebe da fonte
E deixa correr a água...
  Lá vai na rusga que passa...
Chama-lhe o mundo perdida!
Quem canta e ri na desgraça,
Não perde tudo na vida.
  É melhor ficar calado
Do que dizer mal de alguém:
O balão morre queimado
Só pela boca que tem...
   

Xix

 

Engida

 

Sisudo

             
1952   Sou do vira e tu da valsa...
Não queiras dar-me ilusões.
- Mais vale dançar descalça
Do que tombar dos tacões...
  Falei-te à porta de casa,
Fugiste da minha beira...
- A faulha, quando em brasa,
Também foge da fogueira!
  Nem toda a festa tem graça,
Nem toda a gente é contente:
- Há graças com que a desgraça
Faz festas a toda a gente!
   

Maria Impar

 

Cupido

 

Lean

             
1951   Dança, meu alecrim verde,
Mas não percas a chinela.
- quando a chinela se perde
Vai logo o pé atrás dela.
  De ti falou toda a gente;
Coraste aos olhos do mundo:
- Fonte de água transparente
Que mostra a sombra no fundo...
  O cravo que me roubaste
Teve mais sorte do que eu:
- Com tanto jeito o embalaste,
Que ao teu peito adormeceu!
   

João do Mar

 

M. S.

 

Etiel

             
1950   De nós dois fez quatro a vida;
Dos quatro, fez três a morte:
- Por uma folha perdida,
Perdido o trevo da sorte!
  Contradição desmedida
É ver, num filho, o balão
Que deva subir na vida,
Sem que nos saia da mão!...
  Ó fonte! Podia dar
Aos meus olhos o teu pranto!
Eu sofro mais sem chorar;
Tu, sem sofrer, choras tanto!
   

Eugénio de Paiva Freixo

 

Gaiato

 

Melancólica

             
1949   Não sejas tão presumida
Oh fonte do meu lugar!
- Olha que há sedes na vida
Que não podes apagar!...
  Coração, bate com jeito,
Que a fogueira da saudade
Arde mansinho no peito
E dura uma eternidade...
  Falam de mim por cantar,
Por ser alegre e me rir;
Quem não tem por que chorar,
Não vai chorar a fingir...
   

Maria da Fonte

 

José Moreno

 

Larialirio

             
1948   Eu não sei ver de olhos secos
O "fogo-preso", querida!
- Nós também somos bonecos
No fogo-preso da Vida!
  Quando tu danças comigo,
Apertas-me tanto ao peito
Que eu sinto dois corações:
... um esquerdo, outro direito!...
  Amor, Desejo, Ciúme,
- Três fogueiras no meu peito...
Eu nunca vi tanto lume
Em arraial tão estreito!...
   

Poeta ignorado

 

António Joaquim da Silva

 

Fernando Carneiro

             
1947   A roda em que andei rodando
Nos braços do men Manel
Foi-se estreitando, estreitando...
- Até caber num anel!...
  Mais uma noite perdida!
Que importa - Pergunto eu -
Que perca, durante a vida,
A noite que me perdeu?...
  Quem dá cravos por amor
Sabe d'amor a preceito:
Dos cravos fez o Senhor
Corações fora do peito!
   

Maria Feliz

 

Sofredora

 

Fu-King

             
1946   Eu contei todas as voltas
Que na roda te vi dar;
Faltou-me contar aquela
Donde voltaste a chorar!
  És na roda tão leveira,
Sempre que vais a meu lado,
Que nem a própria poeira
Dá por que a tenhas pisado...
  Sempre que danças comigo,
Não atino por que jeito.
És tão leve nos meus braços
E pesas tanto em meu peito...
   

Ancelo

 

Jaijai

 

Jaime António

             
1945   Tu e eu, de carvo ao peito,
Fomos dançar e, depois,
A roda deu-nos o jeito
Dum ramo feito dos dois!
  Nunca o mundo está contente
Até quando canta e dança...
Se é criança, quer ser gente,
Se é gente, quer ser criança!
  São João, se puder ser,
Deixa-me casar mais cedo.
'Stou mortinha por trazer
Uma aliança no dedo...
   

António Dias Abrantes

 

José A. Pereira da Costa

 

Orima

             
1944   Leveira e cor de azeitona,
Oh! Que chinela fui eu!
... Perdeu-me aqui minha dona,
Na roda em que se perdeu.
  Se dancei mal, não se ria,
Nem conte isso a toda a rua,
Que eu só vi minha alegria
Que bailou sempre na sua.
  Da imensa cascata erguida
Sobre este mundo bizarro,
Apenas somos, na Vida,
Pobres bonecos de barro...
   

Engeitada

 

Feliz Ventura

 

Semiramis

             
1943   O trevo que te roubei
Não me deu sorte de jeito:
- A sorte que o trevo tinha
Era encontrar-se ao teu peito!...
  Sentes sede, vais beber...
Algum dia já pensaste
Que a fonte pode sofrer
Da sede que lhe deixaste?
  Não é de vaso perfeito
Que o cravo tem perfeição.
- Nem pela graça do peito
Se tira a do coração.
   

Trovador

 

Boneca do Século XXX

 

Zé-Maria

             
1942   Falam de ti, meu amor,
Mas quero-te mesmo assim:
- Quanto mais calcado for,
Mais cheiroso é o alecrim!...
  Disse, a medo, por te ver,
Com a fogueira a brincar:
- "Com o fogo não se brinca" -
E eu morto por me queimar...
  Ó fonte do Outeirinho,
Dize-me lá por que jeito
Sendo um ai tão ligeirinho
Nos pesa tanto no peito?!
   

Alice G.

 

Giesta Brava

 

Fernanda

             
1941   Na fogueira dos teus olhos
Queimei os olhos, meu bem!
Ventura queimar os olhos
Para não ver mais ninguém!
  Andas na roda da vida,
Passando de mão em mão:
- Mesmo a semente perdida,
Também às vezes dá pão!
  Ó trevo de quatro folhas,
De quatro folhas iguais...
Alguém mo deu: - que esperasse.
Esperei! - não voltou mais!...
   

António

 

A. F.

 

António Reis

             
1940   Fonte de tantas tristezas,
Sei quem és, sei onde moras:
És o que sou - porque rezas,
Vives em mim - porque choras!
  Ouvir falar uma fonte
É ouvir o meu petiz:
Não há nada que não conte
E ninguém sabe o que diz.
  É tão leve o teu pezinho
Que parece, ao bailar,
Asa roçando o caminho
Com desejos de voar!
   

Ofélia

 

Alfrema

 

Açucena

             
1939   Os olhos dos meus filhinhos,
Quando estão p'ra adormecer,
São tal e qual balõezinhos
A apagar e a acender.
  Desde que à fonte sorriste,
Inda ninguém descobriu
Se chora porque fugiste,
Se canta porque te viu...
  Fogueiras - Deus vos mantenha!
Vida e chama, ardei assim...
Nós somos a pobre lenha
Desta fogueira sem fim.
   

Romeu e Julieta

 

Nicolau Eusébio

 

A. TO BE.

             
1938   A minha boca e a tua
São quatro lábios em brasa,
Fogueiras da nossa rua,
Quemtura da nossa casa!
  Parece véu de rainhas
A tua saia de folhos!
Quem lhe orvalhou camarinhas?
Foi a noite ou os meus olhos?...
  Na roda tão pequenina
Pequenina és tu também:
Cinco réis de bailarina
Na rodinha de um vintém...
   

António Gomes Beato

 

Zeca-Nedo

 

Traquina

             
1937   Neguei-lhe um beijo. Fugi...
E as cartas dele queimei!
Finda a fogueira, tremi...
Depois as cinzas beijei!...
  Eu amo duas meninas
De grandes saias de folhos:
- Essas doiradas traquinas
Que bailam nesses teus olhos!...
  Cascatas da minha terra,
Sois um mundo pequenino!
Onde a vida se descerra
Como um sonho de menino!
   

Angelo de Menezes

 

Amélia Vilar

 

Elsa de M. Coelho

             
1936   Trevo feliz, - duas vidas
Nesta vida - encanto e asa:
Que duas bocas unidas
São quatro folhas em brasa...
  "Mulher perdida", disseste
Quando no rancho passei.
Foi tudo quanto me deste,
Em paga do que te dei...
  Trazes um cravo no seio,
Com tanto carinho e jeito,
Que até parece que trazes
O nosso filhinho ao peito...
   

Julieta Teixeira

 

Lena

 

Ana Rosa

             
1935   Hoje, amor, um beijo encerra
A graça de S. João:
Se o sol não beijasse a terra,
A terra não dava pão.
  Noitada de S. João,
Velha a chorar, moça a rir:
Uma chora os que lá vão,
Outra espera os que hão-de vir.
  Já as fogueiras arderam
E ainda há brasas na rua:
São beijos que se perderam
Da minha boca p'rá tua.
   

João Simples

 

Mateisil

 

João Vicente

             
1934   Amas os cravos? - Então,
Cumpre, Amor, o meu conselho:
- Rasga em cruz meu coração
Terás um cravo vermelho!...
  Vê bem o tempo que perdes,
Se o trevo vais procurar...
São trevos meus olhos verdes
Não passes sem reparar!...
  Não saltes sobre a fogueira
Que o nosso amor acendeu...
Lancei-lhe incenso nas brasas:
Deixa-o subir para o Céu.
   

Amélia Vilar

 

Zaira Fernando de Sousa

 

Jorge de Moura

             
1933   Recordaste outras noitadas,
Chorando, junto ao bercinho,
E a pensar nas orvalhadas
Orvalhaste o meu filhinho!...
  Guitarra cheia de laços,
Anda p'rá rua mais eu...
Que eu quero dormir nos braços
De quem os laços te deu.
  ? Porque esta mágoa sentida,
Que me adivinhas na voz ?
- Há tanta dor escondida,
Que canta dentro de nós!...
   

M. Araújo

 

Olegna

 

A. Fernandes

             
1932   Tão branquinho como a neve,
Vermelho o cravo ficou:
Beijou-te o seio, de leve,
Teve vergonha, corou...
  Este amor, perdido enlevo,
Anda de rastos, desfeito...
Mais rasteirinho é o trevo
E tu pões o trevo ao peito!...
  Olhos vom olhos - a chama,
Lábios com lábios - braseira.
Abraços - tudo se inflama,
Arde amor numa fogueira.
   

Samaritana

 

Max

 

A. Ramos

             
1931   Orvalhadas são as rendas
Do bragal dos pobrezinhos...
O Senhor também dá prendas
A quem dorme nos caminhos.
  Quando as saias arregaça,
Para bailar livremente,
Maria, cheia de graça,
Faz a desgraça da gente...
  Orvalho do céu caindo,
Tantas luzinhas a arder...
S. João, como isto é lindo...
- Que pena a gente morrer!...
   

Diário Nuno

 

Salomé

   
             
1930   Passa o rancho - e uma velhinha,
Que já foi linda e que amou,
Fica na sombra, sozinha,
A chorar quem Deus levou!
  Não cobices o craveiro
Que tenho no meu jardim.
Só se quer's ser jardineiro:
Olhas por ele e por mim...
  Deste hoje ao noivo adorado
Três cravos... (Também Jesus
Com três cravos foi pregado
Por muito amar, numa cruz).
   

D. Juan

 

Maria Luísa

 

Zé Minhoto

             
1929   Os teus olhos são fogueiras,
Onde os meus querem bailar.
Hei-de cansar os meus olhos
À volta do teu olhar.
 

Quem me dera, meu amor,
Ser a erva dos caminhos,
P'ra sentir no S. João,
O bailar dos teus pezinhos!

  Ao saltar duma fogueira
Na noite de S. João,
Não sei bem de que maneira
Chamusquei o coração.
   

Salvador Dantas

 

Júlio de Alvapenha

 

Euclides Sotto Mayor